A Acadêmicos do Salgueiro divulgou oficialmente seu enredo para o Carnaval de 2027: uma homenagem potente e reveladora a Xica da Silva, com criação dos carnavalescos Jorge Silveira e Leonardo Antan, baseada na obra Laroyê Xica da Silva. A escola leva à Sapucaí muito mais do que a figura lendária que já conhecemos: propõe um mergulho profundo na trajetória real, na simbologia espiritual e nas camadas de uma personalidade que, há séculos, desafia padrões, reescreve a história e resiste a qualquer definição única.
Tudo começou no próprio Salgueiro, em 1963, quando o enredo sobre a vida de Francisca da Silva deu a conhecer essa personagem ao Brasil e ao mundo. De lá para cá, sua imagem se multiplicou: ganhou corpo e voz nas interpretações de Isabel Valença, Zezé Motta e Taís Araújo; tornou-se ícone de força e transgressão; e, na cultura popular e nas religiões de matriz africana, se consagrou como uma poderosa pomba-gira, senhora das encruzilhadas — aquele espaço entre o visível e o invisível, entre o estigma social e a mística, entre a ficção que criamos e a realidade que poucos conhecem.
O ponto central da narrativa de 2027 é justamente essa busca pelo que estava oculto. Em 2025, a publicação do testamento original da chamada “Rainha do Tijuco” trouxe à luz dados inéditos, detalhes da sua fortuna, das suas relações e da sua atuação, provando que a história real de Francisca vai muito além do mito construído no carnaval, no cinema e na televisão. “Francisca, Chica ou Xica: ela é múltipla, plural, potente e provocadora. Nunca uma só, nem dona de uma verdade absoluta”, explica a escola.
O enredo também exalta a energia exusíaca que ela representa: a capacidade de abrir caminhos, de inverter lógicas, de desafiar hierarquias impostas e de ocupar espaços que diziam não ser seus. A frase que define o tom do desfile — “Arreda, homem, que aí vem mulher!” — é um grito de autonomia, poder e ancestralidade, reforçando que Xica não foi apenas uma personagem da história, mas uma força que continua viva, se manifestando em cada mulher que ousa ser livre.
Para o Salgueiro, que se define como a “Academia do Samba”, esse tema é um ato de justiça cultural e de pesquisa: retomar uma história que nasceu na avenida, mas agora contada com todas as verdades, memórias e simbolismos que a história oficial tentou esconder. Em 2027, a vermelho e branco vai fazer a encruzilhada da Sapucaí ecoar: “Deu meia-noite, a lua se escondeu… Lá na encruzilhada, dando a sua gargalhada…”
